No gato obstruído, a ordem das prioridades é: avaliar o risco de vida (potássio e eletrocardiograma), estabilizar com acesso venoso, fluido e controle da hipercalemia, dar analgesia e só então sedar e desobstruir. A sonda resolve a causa, só que é a hipercalemia que mata nos primeiros minutos. Anestesiar um gato com potássio alto antes de estabilizar é o atalho mais perigoso dessa emergência.
O quadro é clássico no plantão: macho, geralmente jovem a meia idade, entrando e saindo da caixa de areia, vocalizando, às vezes lambendo o pênis, e o tutor achando que é prisão de ventre. Quando chega prostrado, frio e com bradicardia, cada minuto conta. Vamos organizar a chegada.
O que avaliar nos primeiros minutos?
Faça a triagem rápida com o gato ainda na mesa, antes de qualquer exame demorado:
- Nível de consciência e perfusão: mucosas, tempo de preenchimento capilar, temperatura das extremidades e pulso.
- Frequência cardíaca: gato em crise de dor costuma estar taquicárdico. Gato obstruído com bradicardia é hipercalemia até prova em contrário.
- Temperatura: hipotermia é comum nos casos graves e piora o prognóstico.
- Bexiga: grande, firme e dolorida. Palpe com delicadeza.
Por que o potássio vem antes da sonda?
Com a uretra obstruída, o rim não consegue eliminar potássio, e ele sobe no sangue. A hipercalemia altera a condução elétrica do coração e pode levar a bradiarritmias graves e parada. Num estudo retrospectivo com machos obstruídos, uma parte relevante dos gatos chegou com potássio elevado, e os mais graves tinham também acidose e hipocalcemia ionizada, que pioram ainda mais o efeito no coração.
Sinais da hipercalemia no eletrocardiograma
- onda T alta e apiculada;
- onda P achatada até desaparecer;
- QRS alargado;
- bradicardia, que pode evoluir para ritmos sinoventriculares e assistolia.
Coloque o paciente no monitor logo na chegada. O eletrocardiograma dá a resposta em segundos, antes do resultado do laboratório.
Quais exames pedir na admissão?
Com o acesso venoso, colete de uma vez:
- potássio, sódio, cloro e cálcio ionizado;
- gasometria venosa;
- ureia e creatinina;
- glicemia, hematócrito e proteína total.
Se o hemogasômetro tiver eletrólitos, você tem quase tudo isso em poucos minutos.
Como controlar a hipercalemia?
A escolha depende da gravidade e do eletrocardiograma. As medidas abaixo são as descritas na literatura de emergência:
| Medida | Para que serve | Observação |
|---|---|---|
| Gluconato de cálcio 10% | Protege o coração na hora | Não baixa o potássio. Efeito rápido e curto. Aplicar IV lento, com o eletrocardiograma ligado. Dose de referência: 0,5 a 1,5 mL/kg. |
| Insulina regular com glicose | Leva o potássio para dentro das células | Dose de referência: insulina regular 0,1 a 0,25 U/kg IV com glicose (cerca de 1 a 2 g por unidade de insulina), seguida de glicose em infusão e glicemia seriada. |
| Bicarbonato de sódio | Também desloca o potássio para dentro das células | Reservado para acidose importante. Pode reduzir o cálcio ionizado. |
| Fluidoterapia | Dilui o potássio e corrige a desidratação | Cristaloides balanceados ou solução fisiológica são opções aceitas. |
| Desobstrução | Resolve a causa | É o que de fato elimina o potássio, mas vem depois da estabilização. |
Repara no detalhe do fluido: durante muito tempo se evitou o Ringer lactato e outros balanceados por conterem potássio. Só que a quantidade é pequena, e um estudo comparando solução fisiológica com cristaloide balanceado em gatos obstruídos mostrou que os dois foram seguros, com correção da acidose mais rápida no balanceado.
Analgesia e sedação: quando e como?
A obstrução dói muito, e analgesia faz parte da estabilização, não é um extra. Um opioide costuma ser o ponto de partida e já ajuda a reduzir o estresse para os procedimentos.
A sedação ou anestesia para a sondagem vem quando o paciente estiver mais estável: eletrocardiograma melhorando, perfusão aceitável. A escolha do protocolo considera o estado cardiovascular e a função renal. O bloqueio sacrococcígeo com anestésico local é uma opção bem descrita para diminuir a necessidade de anestesia geral e dar analgesia regional.
Cistocentese descompressiva: fazer ou não?
É uma discussão antiga. A cistocentese alivia a pressão da bexiga e dos rins, facilita a sondagem e rende uma amostra de urina sem contaminação. O receio é romper uma bexiga já lesada. Um estudo retrospectivo com gatos obstruídos submetidos à cistocentese descompressiva antes da sondagem não mostrou aumento relevante de complicações graves. Muitos serviços a usam, sobretudo quando a sondagem vai demorar. Use agulha fina, esvazie o máximo possível e evite pressionar a bexiga durante a punção.
E depois da desobstrução?
O gato desobstruído não está fora de perigo. As primeiras 24 a 48 horas pedem atenção a:
- Diurese pós obstrutiva: o rim pode produzir muito mais urina que o normal. Meça a produção com sistema coletor fechado e ajuste a taxa de fluido ao que sai, para não desidratar o paciente.
- Potássio: depois de alto, ele pode cair bastante com a diurese. Repita os eletrólitos.
- Função renal: acompanhe ureia e creatinina até normalizarem.
- Sonda: mantenha limpa e com sistema fechado. Retire quando a urina estiver adequada e o paciente estável.
- Dor e espasmo uretral: continuam depois da desobstrução e merecem tratamento.
Na alta, converse com o tutor sobre a chance de nova obstrução, que é real, e explique os sinais. Aumento da ingestão de água, alimento úmido e manejo ambiental e de estresse fazem parte da prevenção, principalmente na cistite idiopática.
Para fechar as contas de fluido e infusão no plantão, o VetLogic tem as calculadoras clínicas desse fluxo. E, se quiser revisar o raciocínio de fluidoterapia, temos o artigo sobre como calcular manutenção, déficit e perdas.
Perguntas frequentes
Posso sondar primeiro e estabilizar depois, se a sonda passar fácil?
Não é recomendado no gato instável. Sedar com hipercalemia aumenta o risco de arritmia grave. Estabilize primeiro.
O gluconato de cálcio baixa o potássio?
Não. Ele protege o miocárdio por alguns minutos enquanto as outras medidas agem.
Ringer lactato é proibido no gato obstruído?
Não. O potássio dele é baixo, e os estudos mostram que cristaloides balanceados são opções seguras.
Quanto tempo a sonda fica?
Depende do caso. A decisão leva em conta o aspecto da urina, a facilidade da desobstrução e a estabilidade clínica.
Gostou? No Instagram @vet.logic saem conteúdos curtos como este toda semana, e em vetlogic.com.br você encontra as calculadoras do VetLogic para a rotina.
Conteúdo revisado por Jadson de Souza Almeida, médico veterinário, CRMV-RJ 22728. Este texto é educativo e não substitui a bula e a literatura.
Referências
- Silverstein DC, Hopper K. Small Animal Critical Care Medicine. 3rd ed. Elsevier; 2023.
- Lee JA, Drobatz KJ. Characterization of the clinical characteristics, electrolytes, acid-base, and renal parameters in male cats with urethral obstruction. J Vet Emerg Crit Care. 2003;13(4):227-233.
- Drobatz KJ, Cole SG. The influence of crystalloid type on acid-base and electrolyte status of cats with urethral obstruction. J Vet Emerg Crit Care. 2008;18(4):355-361.
- Hall J, Hall K, Powell LL, Lulich J. Outcome of male cats managed for urethral obstruction with decompressive cystocentesis and urinary catheterization: 47 cats (2009-2012). J Vet Emerg Crit Care. 2015;25(2):256-262.
- O'Hearn AK, Wright BD. Coccygeal epidural with local anesthetic for catheterization and pain management in the treatment of feline urethral obstruction. J Vet Emerg Crit Care. 2011;21(1):50-52.
Este artigo foi elaborado com o auxílio de inteligência artificial (Claude Opus 5.5, da Anthropic) e revisado por um médico veterinário.
Use na pratica
Leve organizacao para os atendimentos da sua clinica
O VetLogic conecta agenda, pacientes, retornos e lembretes em uma rotina simples para medicos veterinarios.