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Gasometria veterinária: como interpretar em quatro passos

pH, distúrbio primário, compensação esperada e ânion gap: o roteiro para ler a gasometria, com dois casos resolvidos e o sinal de que existe um distúrbio misto.

23 de outubro de 2026 Conteudo para rotina veterinariaPor VetLogicAtualizado em 23 de outubro de 2026Critérios editoriais e correções

Para interpretar uma gasometria veterinária, siga sempre quatro passos: olhe o pH, descubra se o distúrbio primário é respiratório (pCO2) ou metabólico (HCO3), confira se a compensação é a esperada e, nas acidoses metabólicas, calcule o ânion gap. Se a compensação medida fugir da esperada, existe mais de um distúrbio ao mesmo tempo. Com essa ordem, a sopa de letrinhas vira raciocínio.

No começo, o laudo assusta: pH, pCO2, pO2, HCO3, BE, sódio, cloro, lactato, tudo na mesma folha. Só que para o equilíbrio ácido-base você precisa de poucos números, e sempre na mesma sequência. Vamos montar o raciocínio e depois resolver dois casos.

Antes de começar: amostra venosa ou arterial?

Para avaliar o equilíbrio ácido-base, a amostra venosa funciona bem na rotina. O pH venoso é um pouco mais baixo e a pCO2 um pouco mais alta que na arterial, mas o raciocínio é o mesmo. Já para avaliar oxigenação (pO2), só a amostra arterial serve.

Outro cuidado: compare sempre com os valores de referência do aparelho e da espécie. Os números usados abaixo são aproximados, para cães, e servem só para o exemplo.

Passo 1: o pH diz acidemia ou alcalemia?

Comece pelo pH, porque ele mostra para que lado o paciente pendeu.

  • pH baixo: acidemia.
  • pH alto: alcalemia.
  • pH normal: o paciente pode estar normal, ou pode ter dois distúrbios que se anulam. Por isso o pH normal não encerra a análise.

Passo 2: quem explica o pH, a pCO2 ou o HCO3?

Pense assim: a pCO2 é o lado respiratório (o CO2 forma ácido), e o HCO3 é o lado metabólico (o bicarbonato é base). O distúrbio primário é aquele que explica a direção do pH.

Distúrbio primáriopHAlteração primária
Acidose metabólicaBaixoHCO3 baixo
Alcalose metabólicaAltoHCO3 alto
Acidose respiratóriaBaixopCO2 alta
Alcalose respiratóriaAltopCO2 baixa

Repara que o outro valor costuma andar na mesma direção do primário: na acidose metabólica, a pCO2 também cai. Isso é a compensação, e ela é o assunto do próximo passo.

Passo 3: a compensação é a esperada?

O organismo tenta trazer o pH de volta. Se o problema é metabólico, o pulmão compensa mexendo na pCO2, em minutos a horas. Se o problema é respiratório, o rim compensa mexendo no HCO3, e isso leva dias. Por isso os distúrbios respiratórios têm uma regra para a fase aguda e outra para a crônica.

As regras abaixo foram descritas para cães e estão no livro de DiBartola:

DistúrbioCompensação esperada
Acidose metabólicapCO2 cai cerca de 0,7 mmHg para cada 1 mEq/L de queda no HCO3
Alcalose metabólicapCO2 sobe cerca de 0,7 mmHg para cada 1 mEq/L de aumento no HCO3
Acidose respiratória agudaHCO3 sobe cerca de 0,15 mEq/L para cada 1 mmHg de aumento na pCO2
Acidose respiratória crônicaHCO3 sobe cerca de 0,35 mEq/L para cada 1 mmHg de aumento na pCO2
Alcalose respiratória agudaHCO3 cai cerca de 0,25 mEq/L para cada 1 mmHg de queda na pCO2
Alcalose respiratória crônicaHCO3 cai cerca de 0,55 mEq/L para cada 1 mmHg de queda na pCO2

No gato, os dados são mais escassos, e os gatos parecem compensar pouco a acidose metabólica pela respiração. Use as regras com mais cautela nessa espécie.

E a leitura do resultado é sempre a mesma: se o valor medido bate com o esperado (com uma pequena margem), o distúrbio é simples. Se não bate, existe um segundo distúrbio.

Passo 4: calcule o ânion gap na acidose metabólica

Quando o problema é acidose metabólica, a pergunta seguinte é: o paciente perdeu bicarbonato ou ganhou um ácido? O ânion gap ajuda a separar:

ânion gap = (Na + K) − (Cl + HCO3)

  • Ânion gap aumentado: sobrou um ácido que não é medido de rotina. Pense em acidose lática, cetoacidose diabética, uremia e intoxicação por etilenoglicol.
  • Ânion gap normal, com cloro alto: o paciente perdeu bicarbonato, como na diarreia, ou recebeu muito cloro, como em grandes volumes de solução fisiológica.

Lembre que a albumina baixa diminui o ânion gap e pode esconder um aumento. Em paciente com hipoalbuminemia, leve isso em conta.

Exemplo resolvido 1: um distúrbio simples

Cão com diarreia há três dias. Gasometria venosa: pH 7,26; pCO2 30 mmHg; HCO3 13 mEq/L. Eletrólitos: Na 145, K 4, Cl 120 mEq/L. Para o exemplo, considere HCO3 de referência em torno de 22 mEq/L e pCO2 em torno de 37 mmHg.

  1. pH 7,26: acidemia.
  2. HCO3 13, baixo: explica a acidemia. Distúrbio primário: acidose metabólica.
  3. Compensação: o HCO3 caiu 9 mEq/L (22 − 13). A pCO2 esperada cai 0,7 × 9 = 6,3 mmHg, ou seja, fica perto de 37 − 6,3 = 30,7 mmHg. A medida foi 30. Bate: distúrbio simples, compensado como esperado.
  4. Ânion gap: (145 + 4) − (120 + 13) = 16 mEq/L, dentro do normal para muitos laboratórios, com cloro alto. Combina com perda de bicarbonato pela diarreia.

Exemplo resolvido 2: quando a conta não fecha

Mesmo cão, agora prostrado e respirando mal: pH 7,08; pCO2 45 mmHg; HCO3 13 mEq/L.

  1. pH 7,08: acidemia importante.
  2. HCO3 baixo: acidose metabólica de novo.
  3. A pCO2 esperada continua perto de 31 mmHg. Só que a medida é 45, bem acima. O pulmão não está compensando, está piorando: existe uma acidose respiratória junto.

Ou seja, distúrbio misto: acidose metabólica com acidose respiratória. Na prática, isso muda a conduta, porque agora a ventilação desse paciente precisa ser avaliada com urgência.

Dá para fazer isso sem papel?

Dá. Depois que você entende os quatro passos, vale usar uma ferramenta para não errar conta no plantão. O VetLogic interpreta a gasometria seguindo esse raciocínio, mostrando o distúrbio primário, a compensação esperada e o ânion gap.

Perguntas frequentes

Preciso decorar os valores de referência?

Não. Use os do aparelho e da espécie. O que precisa ficar na cabeça é a ordem dos passos.

E o excesso de base (BE)?

Ele também representa o lado metabólico. BE negativo acompanha a acidose metabólica e BE positivo, a alcalose. Muita gente usa o BE no lugar do HCO3 no passo 2.

pH normal significa gasometria normal?

Não necessariamente. Dois distúrbios opostos podem deixar o pH normal. Olhe sempre a pCO2 e o HCO3.

Existe outra forma de interpretar?

Sim. Além desta abordagem tradicional, existe a abordagem físico-química (de Stewart), que analisa sódio, cloro, albumina e outros ânions separadamente. Ela é útil em pacientes complexos, mas começar pela tradicional facilita.

No Instagram @vet.logic vai sair a versão resumida desta gasometria, para salvar e consultar no plantão. E em vetlogic.com.br ficam as calculadoras do VetLogic.

Conteúdo revisado por Jadson de Souza Almeida, médico veterinário, CRMV-RJ 22728. Este texto é educativo e não substitui a bula e a literatura.

Referências

  1. DiBartola SP. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice. 4th ed. Elsevier; 2012.
  2. Silverstein DC, Hopper K. Small Animal Critical Care Medicine. 3rd ed. Elsevier; 2023.

Este artigo foi elaborado com o auxílio de inteligência artificial (Claude Opus 5.5, da Anthropic) e revisado por um médico veterinário.

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