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Fluidoterapia em cães e gatos: como calcular manutenção, déficit e perdas

Resumo objetivo das diretrizes AAHA 2024 sobre fluidoterapia em cães e gatos, com foco em como diferenciar hipovolemia, desidratação e manutenção, calcular déficit hídrico e evitar sobrecarga de fluidos.

05 de julho de 2026 Conteudo para rotina veterinariaPor Jadson de Souza AlmeidaAtualizado em 06 de julho de 2026Critérios editoriais e correções
RESUMO DE ARTIGO

Fluidoterapia em cães e gatos: o que a diretriz AAHA 2024 realmente reforça

A principal mensagem da diretriz é simples: fluidos devem ser prescritos como medicamentos. Isso significa escolher tipo, volume, via, taxa e monitoramento de acordo com o paciente, não por hábito, protocolo fixo ou soro padrão.



01

Não existe taxa universal

A diretriz alerta contra usar uma taxa única para todos os pacientes.

02

Separe o objetivo

Ressuscitação, reidratação e manutenção são fases diferentes e pedem estratégias diferentes.

03

Monitore e ajuste

O plano não deve ser prescrito e esquecido. A resposta clínica define os próximos ajustes.



EM 30 SEGUNDOS

O raciocínio central da fluidoterapia

Primeiro identifique o problema: o paciente precisa restaurar perfusão, corrigir desidratação, receber manutenção ou uma combinação dessas fases? Depois escolha a via, o volume, a taxa e os parâmetros que serão monitorados.



1. Fluidos são medicamentos

A diretriz AAHA 2024 reforça que fluidos podem produzir efeitos terapêuticos, mas também efeitos indesejados. Por isso, a prescrição deve ser individualizada e baseada na avaliação do paciente, na necessidade de fluidos e na resposta ao tratamento.

Mensagem prática: não basta escolher qual soro. É preciso definir também por qual via, em qual volume, em qual velocidade e com qual monitoramento.


2. Ressuscitação, reidratação e manutenção não são a mesma coisa

A diretriz organiza o cálculo de fluidos em três fases principais: ressuscitação, reidratação e manutenção.

Ressuscitação

Usada quando o objetivo é restaurar rapidamente o volume intravascular em pacientes hipovolêmicos.

Reidratação

Usada para corrigir déficit de hidratação, geralmente com entrega sustentada de fluidos ao longo de 12 a 24 horas.

Manutenção

Usada quando o paciente não consegue manter ingestão adequada de água por via oral ou enteral.



3. Hipovolemia não é desidratação

Esse é um dos pontos mais importantes da diretriz. Hipovolemia é problema de volume circulante efetivo e exige restauração rápida do compartimento intravascular. Desidratação envolve déficit de água e eletrólitos e costuma exigir correção mais sustentada.

Erro comum

Tratar todo paciente desidratado como se estivesse hipovolêmico, ou tratar hipovolemia apenas com uma taxa lenta de manutenção, pode atrasar a correção do problema principal.



4. Como a diretriz orienta a hipovolemia

Para pacientes hipovolêmicos, a diretriz recomenda pequenos bolus de cristaloide isotônico por via intravenosa ou intraóssea, com reavaliação após cada bolus.

Gatos

5 a 10 mL por kg

em 15 a 30 minutos

Cães

15 a 20 mL por kg

em 15 a 30 minutos

O ponto central não é repetir bolus automaticamente. A recomendação é administrar, reavaliar e decidir se o paciente ainda precisa de mais volume.



5. Como calcular o déficit de desidratação

Para estimar o déficit de fluido, a diretriz apresenta uma fórmula direta:

FÓRMULA

Déficit de fluido = peso corporal × percentual de desidratação

Use o percentual em decimal.


Exemplo do cálculo

Um cão de 10 kg com 6 por cento de desidratação:

10 × 0,06 = 0,6 L

Déficit estimado: 600 mL.

Segundo a diretriz, pacientes desidratados geralmente precisam de entrega sustentada de fluidos ao longo de 12 a 24 horas, considerando também manutenção e perdas contínuas.



6. A necessidade total não é só manutenção

A necessidade total de fluidos deve reunir as fases relevantes para o paciente:

Necessidade total = ressuscitação + reidratação + manutenção

As perdas contínuas também devem ser incorporadas ao plano quando presentes.

A diretriz cita diferentes fórmulas de manutenção e afirma que não há evidência clara de superioridade de uma sobre a outra. Entre os valores apresentados estão:

Cães

60 mL por kg por dia

Gatos

40 mL por kg por dia

Também é citada a fórmula 30 × peso corporal em kg + 70 para estimar manutenção em mL por dia.



7. A via depende da gravidade

A diretriz orienta que a escolha da via deve considerar a gravidade do déficit e a capacidade do paciente de receber fluidos por via oral ou por sonda.

Situação Via destacada pela diretriz
Hipovolemia Intravenosa ou intraóssea
Desidratação Intravenosa, subcutânea, enteral ou combinação
Quando possível Preferir vias enterais para suprir necessidade hídrica


8. Fluidoterapia durante anestesia

A diretriz também reforça cautela durante anestesia. Em pacientes com função cardíaca e renal normais, os valores iniciais citados são:

Cães

5 mL por kg por hora

Gatos

3 a 5 mL por kg por hora

A diretriz também destaca que a maioria dos animais saudáveis submetidos a cirurgias eletivas não precisa de fluidos no pós operatório. Nesses casos, o retorno precoce à alimentação e à ingestão de água é favorecido.



9. O risco que a diretriz mais chama atenção: sobrecarga

A sobrecarga de fluidos é descrita como complicação potencialmente fatal e, segundo a diretriz, é mais comumente causada por administração excessiva de fluidos.

Sinal de alerta

Quando edema e efusões já estão evidentes, a reversão pode ser difícil. Por isso, a diretriz enfatiza prevenção, monitoramento e reconhecimento precoce.

Pacientes com doença renal, doença cardíaca, doença hepática ou que recebem grandes volumes de fluidos são citados entre os grupos de maior risco. Gatos e cães pequenos também exigem atenção especial.



10. O que monitorar

A diretriz reforça que o plano precisa ser reavaliado em intervalos regulares. Entre os parâmetros úteis para acompanhar resposta e segurança estão:

Frequência cardíaca Pressão arterial Qualidade de pulso
Tempo de preenchimento capilar Estado mental Temperatura de extremidades
Turgor cutâneo Umidade de mucosas Peso corporal
Débito urinário Entradas e saídas Sinais respiratórios e edema


RESUMO PRÁTICO

O que levar para a rotina

  • Fluidos devem ser prescritos como medicamentos.
  • Hipovolemia e desidratação exigem estratégias diferentes.
  • O cálculo deve separar ressuscitação, reidratação e manutenção.
  • Déficit de desidratação pode ser estimado por peso × percentual de desidratação.
  • Não existe taxa única adequada para todos os pacientes.
  • Monitoramento ativo é parte da prescrição.
  • Evitar sobrecarga é tão importante quanto corrigir déficit.


Conclusão

A diretriz AAHA 2024 muda o foco da fluidoterapia. A pergunta deixa de ser apenas quanto soro colocar e passa a ser qual problema estou tratando.

O raciocínio começa com a definição do objetivo: restaurar perfusão, corrigir déficit, manter hidratação ou combinar essas fases. A partir disso, o plano deve ser individualizado, monitorado e ajustado.


Referência

Pardo M, Spencer E, Odunayo A, Ramirez ML, Rudloff E, Shafford H, Weil A, Wolff E. 2024 AAHA Fluid Therapy Guidelines for Dogs and Cats. Journal of the American Animal Hospital Association. 2024;60:131 a 163.

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