Para dor aguda, as escalas mais usadas e validadas são a Glasgow forma curta (CMPS-SF) no cão e, no gato, a Escala de Expressão Facial Felina (Feline Grimace Scale), a Glasgow felina e a UNESP-Botucatu. Todas têm um ponto de corte que indica resgate analgésico. O segredo não está em escolher a escala perfeita, e sim em usar sempre a mesma, em horários definidos, e agir em cima da nota.
O paciente deitado no fundo do canil, quieto, pode estar confortável. Ou pode estar sofrendo calado. Cão e gato não reclamam do jeito que a gente gostaria, e o gato, então, é especialista em disfarçar. A escala existe justamente para tirar essa decisão do "acho que está bem".
Por que usar escala em vez da impressão clínica?
As diretrizes de dor da WSAVA de 2022 são diretas: a dor deve ser avaliada como parte do exame de todo paciente, e com instrumentos validados sempre que existirem. A impressão subjetiva varia muito entre profissionais e tende a subestimar a dor, principalmente em gatos e em animais quietos.
Além disso, a escala dá linguagem comum para a equipe. "Glasgow 8 às 14h, 3 depois do resgate" diz muito mais na passagem de plantão do que "parecia desconfortável".
Quais escalas usar no cão?
Glasgow, forma curta (CMPS-SF)
É a escala de dor aguda mais estudada em cães. Combina observação no canil, interação, resposta à palpação da área dolorida e mobilidade. O total vai até 24 pontos.
- Ponto de intervenção: 6 ou mais em 24.
- Quando não dá para avaliar a mobilidade (paciente que não pode andar, por exemplo), a escala vai até 20 e o corte passa a ser 5 ou mais.
Na prática, ela leva poucos minutos depois que a equipe treina. Vale imprimir e deixar junto da ficha de internação.
E a dor crônica?
Para osteoartrite e outras dores persistentes, as ferramentas são questionários respondidos pelo tutor, como o Canine Brief Pain Inventory (CBPI) e o LOAD. Eles servem para acompanhar a evolução ao longo de semanas, não para decidir resgate no pós operatório.
Quais escalas usar no gato?
No gato as opções validadas são várias, e todas funcionam. Escolha a que a sua equipe vai conseguir aplicar sempre.
| Escala | Espécie | Como funciona | Ponto de intervenção |
|---|---|---|---|
| Feline Grimace Scale | Gato | 5 itens da face (orelhas, olhos, focinho, bigodes e posição da cabeça), cada um de 0 a 2. Rápida, feita só observando. | 4 ou mais em 10 |
| Glasgow felina (CMPS Feline) | Gato | Comportamento, expressão facial e resposta à palpação. | 5 ou mais em 20 |
| UNESP-Botucatu, forma curta | Gato | Postura, atividade, atitude, reação à palpação e expressão. Desenvolvida no Brasil. | 4 ou mais em 12 |
| Glasgow, forma curta (CMPS-SF) | Cão | Observação, interação, palpação e mobilidade. | 6 ou mais em 24 (5 em 20 sem mobilidade) |
Repara que nenhuma escala de cão serve para gato, e o contrário também vale. Os comportamentos de dor mudam muito entre as espécies: o cão costuma vocalizar e proteger a área, enquanto o gato fica imóvel, encolhido, com a cabeça baixa e os olhos semicerrados.
Para dor crônica no gato, o Feline Musculoskeletal Pain Index (FMPI), respondido pelo tutor, ajuda a acompanhar a doença articular degenerativa, que é muito subdiagnosticada.
Quando reavaliar?
Uma avaliação isolada diz pouco. O que orienta a conduta é a série de notas. Na rotina de internação, uma organização prática é:
- na chegada e antes de qualquer procedimento, para ter a linha de base;
- em intervalos regulares no pós operatório imediato, por exemplo a cada 2 a 4 horas, e com mais frequência nas primeiras horas;
- sempre depois de um resgate analgésico, no tempo em que o fármaco usado já deve ter feito efeito;
- quando a equipe ou o tutor perceberem mudança de comportamento.
O intervalo depende do procedimento, do protocolo analgésico e do paciente. O importante é que esteja escrito na prescrição, e não deixado para quando der tempo.
Como transformar a nota em decisão?
A lógica é simples: nota no ponto de intervenção ou acima, faz o resgate e reavalia. Nota abaixo, mantém o plano e reavalia no horário previsto. Só que alguns detalhes mudam a leitura:
- Sedação confunde a escala. Um paciente muito sedado pode pontuar baixo e ainda assim ter dor. Separe sedação de conforto.
- Na dúvida, teste o analgésico. As diretrizes da WSAVA sugerem que, se o comportamento melhora depois do resgate, a dor era a causa. Esse teste terapêutico é uma ferramenta legítima.
- Nota repetidamente alta pede revisão do plano, não só mais resgates: dose, intervalo, analgesia multimodal, bloqueios locorregionais, e checar se não há uma complicação cirúrgica.
- O ponto de corte é um gatilho, não um teto. Um paciente abaixo do corte, mas claramente desconfortável na sua avaliação, merece atenção.
Como implantar na clínica sem virar mais uma burocracia?
- Escolha uma escala para cão e uma para gato. Não mais que isso.
- Treine a equipe com vídeos e casos reais. A concordância entre avaliadores melhora muito com treino.
- Coloque a escala na ficha de internação, com espaço para hora, nota e conduta.
- Defina na prescrição quando avaliar e o que fazer a partir de cada nota.
- Revise os casos em que a dor escapou. É ali que o protocolo melhora.
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Perguntas frequentes
Qual é a melhor escala de dor para gatos?
Não há uma única melhor. A Feline Grimace Scale é a mais rápida, a UNESP-Botucatu e a Glasgow felina avaliam mais aspectos. Escolha a que a equipe vai aplicar de forma consistente.
Posso usar a escala de Glasgow do cão no gato?
Não. Use uma escala validada para gato, porque o comportamento de dor é diferente.
Paciente dormindo deve ser acordado para avaliar?
Se ele dorme em posição relaxada e confortável, muitas equipes registram a observação e avaliam a interação no horário seguinte. Postura encolhida ou tensa durante o "sono" não é sinal de conforto.
Escala substitui o exame clínico?
Não. Frequência cardíaca, frequência respiratória e pressão ajudam, mas sozinhas são pouco específicas para dor. A escala organiza a avaliação, e o clínico interpreta o conjunto.
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Conteúdo revisado por Jadson de Souza Almeida, médico veterinário, CRMV-RJ 22728. Este texto é educativo e não substitui a bula e a literatura.
Referências
- Monteiro BP, Lascelles BDX, Murrell J, et al. 2022 WSAVA guidelines for the recognition, assessment and treatment of pain. J Small Anim Pract. 2023;64(4):177-254.
- Reid J, Nolan AM, Hughes JML, et al. Development of the short-form Glasgow Composite Measure Pain Scale (CMPS-SF) and derivation of an analgesic intervention score. Anim Welf. 2007;16(S):97-104.
- Reid J, Scott EM, Calvo G, Nolan AM. Definitive Glasgow acute pain scale for cats: validation and intervention level. Vet Rec. 2017;180(18):449.
- Evangelista MC, Watanabe R, Leung VSY, et al. Facial expressions of pain in cats: the development and validation of a Feline Grimace Scale. Sci Rep. 2019;9:19128.
- Belli M, de Oliveira AR, de Lima MT, et al. Clinical validation of the short and long UNESP-Botucatu scales for feline pain assessment. PeerJ. 2021;9:e11225.
Este artigo foi elaborado com o auxílio de inteligência artificial (Claude Opus 5.5, da Anthropic) e revisado por um médico veterinário.
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